Dois caçadores-coletores de Sulawesi, na Indonésia, deixaram nos dentes um padrão raro de desgaste e sinais químicos de noz-de-areca. O indivíduo mais antigo viveu entre 25 mil e 16 mil anos atrás. A combinação levou pesquisadores a propor que sementes inteiras permaneciam na boca por longos períodos, muito antes da agricultura local.
O que os dentes de Sulawesi revelaram sobre a noz-de-areca
🏛️ 25 mil a 16 mil anos atrás: Maros-LBB-1a vive em Sulawesi.
🌿 7,6 mil a 6,3 mil anos atrás: CPL-R2a apresenta desgaste semelhante.
🚀 2026: Análises unem desgaste, química dentária e experimento fisiológico.
O estudo publicado na Science Advances analisou restos de dois caçadores-coletores anteriores à agricultura em Sulawesi. O indivíduo Maros-LBB-1a veio de Leang Bulu Bettue e pertence ao intervalo entre 25 mil e 16 mil anos atrás. Já CPL-R2a viveu entre 7,6 mil e 6,3 mil anos atrás em Leang Cappalombo 1, cerca de 33 quilômetros a leste.
Nos dois casos, os pesquisadores observaram sulcos profundos e arredondados em diferentes dentes. O formato não combinava com a mastigação normal nem com padrões comuns de uso dos dentes como ferramentas, fortalecendo a hipótese de areca. Assim, a equipe associou as marcas ao contato repetido com um objeto duro e arredondado de aproximadamente 10 a 20 milímetros.
Como a química encontrou arecolina nos dentes antigos
Análise química pode revelar moléculas preservadas nos dentes antigos - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
A equipe examinou fragmentos e dentes preservados por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, técnica capaz de separar e identificar compostos químicos. Em Maros-LBB-1a, uma amostra com desgaste apresentou arecolina, principal alcaloide neuroativo associado à areca. Os pesquisadores também encontraram o mesmo composto em uma amostra de CPL-R2a.
Esse resultado não funciona sozinho como prova de um hábito específico. Porém, ele coincide com o padrão físico observado nos dentes e com outros compostos compatíveis com plantas usadas nesse contexto. Por isso, a ausência de manchas típicas do preparado moderno reforça a hipótese de sucção prolongada de sementes inteiras, sem a mistura atual com cal.
Por que os pesquisadores testaram sementes inteiras em laboratório
O costume moderno costuma combinar noz-de-areca, folha de betel e cal apagada, que altera a liberação de compostos ativos. Entretanto, os dentes antigos não apresentaram sinais claros desse preparado. A equipe então testou se sementes inteiras liberariam arecolina durante contato prolongado com um meio semelhante à saliva, simulando essa condição em laboratório.
Os experimentos em laboratório mostraram atividade compatível com a liberação de arecolina em quantidade suficiente para provocar efeitos fisiológicos. Pesquisadores aplicaram soluções das sementes a células com receptores humanos expressos em oócitos de rã, medindo respostas químicas específicas. A Griffith University resume que o resultado sustenta uma forma anterior ao costume moderno, mas não revela a intenção pessoal daqueles usuários.
Isso prova o uso habitual de droga mais antigo conhecido?
Evidência
O que sustenta
Desgaste dentário
Contato repetido com objeto duro e arredondado.
Arecolina
Consumo de noz-de-areca nos dois indivíduos analisados.
O trabalho apresenta os restos de Maros-LBB-1a como a evidência registrada mais antiga de uso habitual de uma planta neuroativa. A conclusão depende da combinação entre repetição mecânica, química dentária e testes experimentais, três linhas independentes de evidência. Assim, ela é mais específica do que encontrar apenas uma planta psicoativa em um sítio arqueológico.
Porém, “mais antigo conhecido” descreve o registro arqueológico disponível, não o primeiro uso humano de drogas. Práticas anteriores podem ter desaparecido do registro arqueológico ou permanecer ainda não detectadas, enquanto a amostra atual reúne somente dois indivíduos separados por milênios. Portanto, os dados não autorizam afirmar que toda a população de Sulawesi mantinha o mesmo costume.
O que ainda não sabemos sobre o motivo desse hábito
Os autores consideram provável que as propriedades psicoativas tenham favorecido o costume. Porém, também mencionam uma possível finalidade medicinal, porque a arecolina apresenta efeitos que podem se relacionar ao alívio da dor. Os restos arqueológicos não revelam se o uso buscava estímulo, analgesia, ritual ou convivência social, nem apontam uma motivação única.
Também não é possível diagnosticar dependência nesses indivíduos a partir dos dentes. No presente, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica a noz-de-areca como carcinogênica para humanos. Contudo, esse risco moderno não define as consequências antigas, pois preparo, frequência e exposição daqueles caçadores-coletores permanecem desconhecidos.
Os dentes ampliam uma história difícil de preservar
O estudo mostra como marcas microscópicas, moléculas e experimentos podem recuperar hábitos que raramente deixam objetos reconhecíveis. Esses dentes não revelam o primeiro uso humano de drogas, mas ampliam muito o registro conhecido. Ao olhar para o desgaste e seus limites, entendemos melhor como plantas neuroativas já faziam parte da experiência humana antes da agricultura. Observe essa descoberta como uma janela rara para comportamentos que quase nunca sobrevivem no tempo.
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